Pudesse a água embebedar
Afogar esta dor de cabeça
Diluir esta comichão da vida
Hidratar os rasgos de inspiração
Dar forma à poesia que teima nascer em versos soltos.
Abrir em mim afluentes sem nascentes próprias para além da arte.
Arrastar-me na corrente gelada
Levar-me sem que eu tenha de decidir
A que foz quero ir dar.
Com que voz quero falar?
Transpirar para fora de mim
Qual lágrima de quilates sujos,
Erodir-me e reinventar-me a partir dos meus sedimentos
Tal areia colada ao cuspo.
Pudesse a água curar depois de toda a ressaca de existir.