quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

apaguei tudo
já não sou quase nada 
E o que resta de mim, é só carne

A vontade para perceber as coisas?
E a sede de querer em demasia?
Já não as tenho

Agora já nem bebo água
E já percebo tanta coisa

Não quero mais do que tenho
Contento-me com isto 

a minha alma agora é só existência 
e a minha cabeça, essa quase que não pensa



sábado, 14 de novembro de 2015

fico

Com tinta vermelha
Um tanto gasta
Um nada perceptível
Procuro-te em letras minúsculas

Porque te escondes?
Estou na rua do costume
Entre o sim e o não 
Entre o fico e o vou

Deixo-me ficar.

Choro à noite
Choro de dia
Interiormente, apática
Só choro quando penso

As palavras vão-me escrevendo
Enquanto vou pensando em não pensar
Entretanto, vou-me deixando ficar

O que eu escrevo
É mais ou menos o que digo
Só que o que escrevo, eu penso
E o que digo é a maneira como me expresso

Se eu fizesse sentido
Gostaria de ser um pássaro
E mesmo assim ficar
Porque não faço.

Como não faço sentido
Voo e vou caindo
Nos teus braços
E vou-me deixando ficar


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

água

Pudesse a água embebedar
Afogar esta dor de cabeça 
Diluir esta comichão da vida
Hidratar os rasgos de inspiração 
Dar forma à poesia que teima nascer em versos soltos.

Abrir em mim afluentes sem nascentes próprias para além da arte.
Arrastar-me na corrente gelada
Levar-me sem que eu tenha de decidir 
A que foz quero ir dar.

Com que voz quero falar?
Transpirar para fora de mim 
Qual lágrima de quilates sujos,
Erodir-me e reinventar-me a partir dos meus sedimentos
Tal areia colada ao cuspo.

Pudesse a água curar depois de toda a ressaca de existir.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

2 dias para viver

Enquanto vejo o mundo
Com olhar de quem não esquece
Enquanto o meu sangue aquece
Ele passa
Estamos sentados no chão
Vêmo-lo passar.

São dois dias, dizem
Mas, o tempo, em segundos
Esconde o que desejamos tantas vezes.

Vês a maneira como não existes?
Sê-me, pelo menos, metaforicamente 

terça-feira, 14 de julho de 2015

autocarro de partida

Pensei para mim mesma
Pensei e repensei
Onde será que errei?

A estação está quase vazia
Quero partir
Sinto um cheiro a gasolina que percorre o espaço

Oiço um choro do meu lado direito
Lamentações de uma mulher desconhecida
Ela olha para o autocarro com os olhos enterrados nos pneus

O estômago remói-me 
Não dormir a noite passada

terça-feira, 23 de junho de 2015

A muralha

A certeza de um futuro incerto assusta-me
Eu, que me fui escondendo durante os meus anos de vida, atrás de uma muralha
Observo-me, com as mãos feridas e com um martelo na mão
Estou a destruir a muralha e estou suja de cansaço.

Já vejo metade de algo,
Caio no chão a cada 5 minutos de esforço
A minha alma já transpira dor 
Volto a levantar-me só porque já vejo metade de algo.

Tenho 5 minutos que passam a 5 horas 
Momentos, em que a esperança se perde de mim e cega-me com lágrimas que não acabam
Perco-me no tempo
Já não vejo nada.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Um passeio


Decidi eu, unir o conhecimento com a loucura
Com correntes de ferro atadas aos pés
Pedi força a um ser superior 
Pois, a força que tenho não bastava para acorrentá-los.

Um dia desconhecido
Numa rua desconhecida, pelo tempo que me chegou aos ouvidos
Eles tropeçaram um no outro
Encontram-se, agora, em estado inconsciente

Estava eu a passear
Onde tudo e nada acontece
Distraída com a vida
As vidas, que a rua já teve

Continuaria o passerio
Se não tivesse tropeçado, também
Na minha própria união
Entre aqueles, os inconscientes

Agora
Porém, desmaiada
Sinto mais o mundo
Do que alguma vez senti

E, a queda
Deixa-me tão acordada

Porém, desmaiada



















Atrasos

Reparei numa coisa
Estou sempre atrasada para tudo
E, a reparar nisto, reparei que
Até para reparar nisto, me atrasei.

O que, poderá ser bastante irónico
Pois, não espero por nada
Mas tudo espera por mim.
Mas, poderá ser.

Poderá não foi no passado
E, se no passado não o foi
No futuro não o será
Porque deduzo que também me vou atrasar

Determino esta coisa
Como uma coisa a mudar
Mas será que a mudá-la
Me vou atrasar?