terça-feira, 8 de novembro de 2022

Uma vontade de fugir, que cresce sem parar
Como um fungo que se espalha por todo o corpo
Até não caber em mais sitio nenhum.

Existe um sitio, para onde eu vou
Onde o silêncio se transforma numa nuvem
E a melodia confortável do escuro 
É uma música que se ouve em todos os cantos.





sábado, 15 de outubro de 2022


Quando me vejo na sombra
Contra a luz crua 
Dos monstros que me magoam
Tenho pena de mim.

Depois que saio do escuro
Vejo que, afinal, não são monstros
São meias pessoas, 
E tenho pena deles.





15

 

Listas intermináveis 
Sonhos palpáveis
Desejos inalcançáveis.

Recuperar
Um passado que não existe
Ser
E ser triste.

Tocar no amor
Tocar na dor
Fugir
Ficar incolor.

Dizer tudo
Não dizer nada
Ser incompreendido
Ficar calado
Ferido.

Lutar
Render-me
Acreditar
Desiludir-me
Fugir.


sábado, 20 de agosto de 2022

dá-me tempo

Ninguém fica intacto depois da morte,
Somos menos,
Perdemos várias coisas e descobrimos apenas uma.

Menos inocência,
menos paciência
menos brilho
menos medo
menos sonhos por realizar 
menos palavras que ficam por dizer
menos abraços por dar
menos rascunhos
menos amor por mostrar.

Mais consciência do tempo.




terça-feira, 21 de junho de 2022

chuva

Nasci com uma alma velha
Que me assombra no presente.

Um passado
Mais antigo do que a minha vivência 
Foi-me dado à nascença 
Um presente sem presença 
Um corpo que existe sem existência. 

Meus sentimentos são escassos
Só o meu coração sabe
Só o meu coração sente
O que tenho de esconder
Para não amar tão intensamente.

Depois que o som da chuva
Passou e com ele
O sol aparece e não esquece a tristeza
O corpo encharcado, o coração afogado
O coitado do apaixonado.





sábado, 28 de maio de 2022

 Tropecei em ti
Ou tropeçaste em mim
Tuas lágrimas de seda
Regaram o meu jardim.

Enquanto me rasgas a realidade
Com palavras fortes e belas
Entras no meu castelo, arrombas-me a porta
A minha perna treme, fico tonta.

Quero beber-te numa taça
Enrolar-me na tua casta
Da tua saliva, sedenta
Enchendo de desejo e prazer a minha boca
O corpo sabe
Quero-te louca e rouca.

A tensão cresce 
Quero tirar-te a roupa
A tesão desce
A tua voz foge
E, antes de te beijar 
Já te beijei 1000 x a boca.

Desnudam-se as almas
O meu corpo grita pelo teu
Viramos animais
Perdem-se as calmas
Ultrapassamos a cama, o quarto, a casa 
E fazemos uma visita ao céu.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Olhos antigos

O querer ir mais longe
Foi-me dado à nascença 
Como uma espécie de doença
Insatisfação, faz parte da minha natureza.

Subir mais alto
Ver tudo de cima
Tudo tão pequeno
Apesar da sua beleza

Nada chega para alimentar a minha tristeza.

Tudo o que já vi
Meu olhar não viu
A minha alma viveu
O meu coração esqueceu
Noutra vida foi
O que já não dói
Observo a lua
E a noite que cai
Tantas fases já passei
Tantos sítios marquei
Com memórias 
Não minhas
Mas de outro alguém.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

9 de Maio

Um vaso caído
Uma inquietação
Vontade de pisar a linha
A sensação de liberdade
Soltar as cordas que prendem a personalidade.

Voltar ao próprio corpo
Voar para o meu mundo
Ser eu e ser suficiente 
Cortar o que me prendia a ti
Fugir do hábito, por ti e por mim.

As folhas que crescem em mim 
Sentir os ramos a nascer
Sentir, ser e voltar a ver
A cor das flores
Curar todas as dores.

Tenho saudades de algo que não aconteceu
E que bom que não foi
Todos os sonhos que tive contigo
O meu peito ainda dói.

A nossa lua cheia sempre foi minha
Perdi-me a meio
Entre as estrelas e o teu peito
E antes de te conseguir salvar
Acordei e parei de sonhar.

domingo, 24 de abril de 2022

Domingo

Nas horas mais sombrias
Surge um poema
Como um grito
Que só eu oiço 
Mas que chega aos ouvidos do coração.

Não escrevo para ser ouvida
Se um dia alguém me escutar com atenção 
Vai perceber que o mar também cabe num corpo
E que é possível viver mesmo depois de estar morto. 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Aqui do alto da serra

Viajo, desde o alto da serra
Até às profundezas da terra
Não sei se é o nascer do sol, ou o vento
Qualquer coisa parou o tempo.

Aqui, onde o instante importa
A vida terrestre faz-nos mal
Afinal, lá em baixo sou só um animal
Aqui, sou Céu, sou universo.

Nunca estive tão desperta
Atravesso o cosmos e vou em direção ao sol
Nem os pássaros voam tão longe
Mas eu tive de voar muito para chegar ao auge.





segunda-feira, 18 de abril de 2022

Coração de ouro

A manhã que vem
Os pássaros que despertam
O tempo que me deixa existir 

A serra e o rio
O cheiro a liberdade
A beleza da antiguidade 

No banco de jardim, de onde é visível o futuro
Contam histórias de ouro
O passado que já não lhes pertence.

Aceitam as rugas e as dores 
Um relógio lento e um presente que passa rápido 
Falam de desgostos e amores
De quando as flores tinham cores.

Oh avó, sofro com a tua tristeza
Porque trazes tanta dor?
O teu coração não cabe no peito
Quem me dera guardar para sempre o teu amor.



quinta-feira, 14 de abril de 2022

Lembrei-me de ti

 Encontrei um livro que gostavas e lembrei-me de ti.
Consegui finalmente lembrar o passado sem mágoa.
E sorri.

Sonhei contigo mas não me lembro do sonho
Já não escrevo sobre ti há algum tempo
E pouco ou nada me lembro da tua voz.

A tua rotina, a nossa 
Deixei tudo no passado
E já não sou nem metade da pessoa que conheceste

É tão natural isto do tempo
A mudança e a transformação
Não sobra tempo para o lamento
De uma vida em negação.

Surge o presente
Como o nome o diz
Uma palpitação diferente
E outra forma de ser feliz.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Cai da falésia O homem que amou um rascunho

Desfaz-se o impostor
Ele vai com a teimosia
E, estendido fica.

Uma folha amachucada
Guardam as palavras do futuro
Que voam para ti
Que voam para mim

Encontramo-nos lá
Quando cruzares o meu parágrafo
E eu passar por ti 
Acena.

Acerto o tempo 
Faltam 30 dias 
Depois disto não sei.




domingo, 27 de março de 2022

O cancro

A morte é um tabu 
Ninguém nos ensina a lidar com ela
Todos sabemos que um dia chegará para nós   
Celebramos um novo nascimento e esquecemo-nos dos idosos
Tudo porque temos medo de envelhecer


A morte aproxima-se e toda a gente a sente
O cancro consome a pouca vida que te resta
E eu vejo-te reduzido a uma criança 
O homem da família no seu estado mais vulnerável 

Ninguém sabia muito bem o que dizer
A chuva veio para preencher o silêncio 
Nunca choro nos momentos que é suposto

Tu, que falavas muito em Jeová
Avô, o Deus a quem rezavas não existe
Tantas rezas a agradecer a comida 
Tantos pedidos de socorro
O pão que agradecias sempre veio do teu próprio esforço

No dia em que partiste
Em forma de pássaro
Apareceste na minha janela
E na Graça inteira 
Todos ouviram a canção mais bela 



 




segunda-feira, 21 de março de 2022

Talvez crescer seja largar, desapegar, 
Afastar tudo o que já não faz sentido num futuro próximo
Desculpar e deixar a mágoa para trás 
Desculpar-me

Amar-me, cuidar-me, voltar a mim
Apresentar uma versão nova de mim mesma a mim própria
Relembrar o que a companhia de outro ser nos fez esquecer
Construir-me na solidão e erguer uma pessoa melhor 

Aceitar um novo capitulo
Aprender a ser
Respirar fundo na minha solidão
Curar o passado e renascer.


Angústia profunda

Delírios 
Oh, insónias
Não escrevo palavras bonitas
E nem para tudo existem palavras

Ansiedade,
Tantos sentimentos que cabem numa só palavra
Não acredito que tudo o que eu sinta se resuma a isto
Mas torno-me refém de dizê-la 
O que tens? Ansiedade. 
E toda a gente percebe.

Qual seria o desgosto de toda a gente
Se realmente disser o que sinto
Já estaria internada, provavelmente.

A minha doença é sentir demasiado
E talvez a ansiedade seja a consequência desse pecado.

 

quarta-feira, 16 de março de 2022

lua

Teu corpo inteiro
E o que esconde o pensamento
A alma que te foi atribuída
Dá-me paz, dá-me vida.

Entre nós, o que há em nós 
Não foi um mero acaso 
Um abraço eterno, um desejo
O vento que te trouxe com a brisa de um beijo.

Um encontro ao anoitecer
Gosto da tua maneira de ser 
Como a lua que me acalma e me faz perder
Aquece-me a dor, afaga-me as feridas e traz-me calor. 




terça-feira, 15 de março de 2022

Se eu partir a cabeça a alguém
Estou a salvá-la?

Ouve-se um estrondo
E, quando cai no chão
Saem mil folhas

Aterram brutalmente
Por entre esferas de som
E agora elas voam para longe

Eu não paro de escrever
Enquanto há pulsação
Enquanto achamos que somos donos do mundo
Enquanto nada sentimos

Ainda não parei de escrever
Mais tarde, sei que não irei entender esta letra
Mais tarde, até posso nem entender o porquê de ter sujo o papel
Mas a minha mente não pára.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Herança

 Ensinou alguém à ave
A assentar as asas num só lugar?
A juntar os galhos para construir o ninho
Quando esta só queria voar?
Quem lhe disse para proteger a cria
Com a sua alma e a sua própria vida
O instinto de cuidar, ensinar e amar
Para um dia a soltar?

Será que alguém escolheu?
E não foi coincidência alguma
Que as expressões do meu rosto, fossem cópias da tua?
Talvez o sangue, que corre nas minhas veias 
Sempre em ti existiu
E a força que eu tenho, de ti também surgiu.

Quem te ensinou, minha mãe?
A esquecer que o mundo lá fora caía 
A proteger uma nova vida.
Haverá alguém que me consiga explicar?
Como tanta luz, num só corpo, é capaz de habitar.
Tua respiração a minha força, tuas palavras a minha coragem
Teus olhos o meu sol 
Nesta vida e nas próximas, por ti… tudo.







terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Bela Mentira

 Na terra de ninguém,
Deixada por mim no passado
Onde nada existe, só os enganos
E as palavras de um destino fracassado.

Eu sonhei contigo mas não te vivi
E, nas tuas promessas vagas
Foi a primeira vez que morri.

Por detrás daqueles montes
Só me deixaste viver nos teus olhos
E no dia em que me enterraste
Jorraram lágrimas de todas as fontes.

Na terra onde as promessas tudo matam
Uma fruta, em abundância cresceu
Com as raízes da minha força
Ela, da tristeza se ergueu.

Que daquelas amoras
A minha história escreva
Como a fruta mais saborosa
Que naqueles montes poisou.

E que tu te rendas
À mentira
Que a sina a ti te destinou.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Névoa

 Só vive de eterno ardor
O que está sempre a pensar
No que existe atrás da névoa
Por detrás da ferida por curar

O tempo só traz de volta
O que a olho nu não conseguimos avistar
Quando da memória tivemos de cortar
O veneno que estava a alastrar.

Como é negro este clarão 
Falta-me o brilho nos olhos
O falso encantamento 
De um passado inventado pela ilusão.

E foi assim que sempre fugi
Do confuso e contraditório perdão.