sábado, 27 de novembro de 2021

39º de Febre

Já não é amor
Não é saudade 
É a memória 
São as rotinas que se entranharam em mim 

Leite com café ou cappuccino?
A memória já começa a falhar, felizmente
Levava-te o leite à cama
Acompanhado com um beijo de bom dia 

Antes de sair de casa, olho para o chão em busca da tijela dos gatos
Apercebo-me de que não tenho animais

Ao meio dia era a hora de ver-te 
Agora é hora de cuidar de mim.

Comemos em quase todos os restaurantes desta cidade
Agora prefiro comer em casa.

Gostavas de cuidar de plantas
As minhas estão a morrer porque não consigo olhar para elas 

Vou tentando enganar a mente
Finjo que as séries que acompanhávamos já não existem
Que os restaurantes e cafés que frequentávamos encerraram 
As ruas em que passeávamos, os miradouros, os parques
Tudo isso foi apagado.

Já não tenho vergonha de sentir, de admitir que sinto e sei que um dia vou conseguir ver esta cidade com outros olhos que não os nossos mas ainda não chegou esse dia.



terça-feira, 14 de setembro de 2021

Sumos de setembro

 A dor belisca-me a epiderme

Ignoro a besta
Enquanto me esforço para me desviar da tristeza.

Já não afogo as mágoas
Agora disseco-as 
Corrijo-lhes as falhas
E livro-me delas.

Já não sou sugada pela dor
Espremo-a
Faço um sumo natural
E vou degustando com prazer o sabor da minha força.




quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Nítido

O que vêem os loucos?

De fato e gravata passam os aceites
Frenéticos, espreitam as horas
Como se soubessem o prazo da sua existência
Como se estivessem sempre atrasados para chegar a algum lugar.

De farrapos e imundo passa um mendigo
Abatido, em busca de pontas de cigarros
Como se estivesse condenado a esta rua
Como se soubesse a sina de nós todos.

São horas de ver o mundo
O tempo não deixa de existir
Não há pausas para cair


Talvez as folhas só caiam para que possamos renascer.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

solidão de um mudo

 A cor dos teus cabelos a única cor
E de toda esta cidade a única pessoa
A tua voz a canção mais triste
Que em todas as ruas ecoa.

"Vais ver que um dia irás melhorar"

A realidade é um pesadelo
Se for uma realidade em que não existes
Eu lavo as feridas, eu visto a capa de gente
Eu ignoro o dia, chego a casa, durmo e sou feliz.

Tenho saudades de tudo
Engano o meu coração
Ele quer continuar a amar-te
Eu digo-lhe que não

"Descansa que com o tempo isso há de passar"

Já não sou pessoa 
Sou nostalgia de um amor que não aconteceu 
Lembro-me de tudo, menos do que é estar sozinha
A minha alma castiga-me
Aprisiono-me na solidão.

domingo, 25 de julho de 2021

a noite

 E o que é a dor do amor para um artista senão combustível para a sua arte?

É preciso ter coragem para reaprender a andar sem ver a sombra dos teus passos
Olhar com os olhos que acordavam a ver os teus ainda fechados
Falar com a mesma boca que te dava um beijo de boa noite

Chega a noite
É preciso ter coragem para dormir, reencontrar-te em sonhos
Acordar, apagar todos os vetigios de nós dos meus lábios e fingir que não te beijei de todas as formas.

Ouvi dizer que se alguma vez foste amado por um escritor serás eterno.

sábado, 24 de julho de 2021

cigarros

Os cigarros são apenas um passatempo
E, cada travo que dou, é um segundo de vida
Desperdiçado, a tirar-me a mesma.

Pares de pessoas
Os que passam por mim,
Não passam de pares.

Os apaixonados,
Os iludidos,
Às vezes os dois

E eu?
Eu vejo-os passar

De que lhes vale ver-me?
Se não ouvem o que digo
Não leem o que escrevo
Não vêem com os meus olhos.
 

cicatrizes

 Escorre por todos os poros
Derrama o lago que há dentro de mim 
E inunda a minha casa

As memórias cortam como facas
Abrem caminhos para a dor entrar
O coração grita 

Quantas vidas me restam?


domingo, 27 de junho de 2021

Ego

Egoísta compulsiva
Falo sempre de mim
Quando encontrarem o meu caderno sem palavras
É porque morri.

Eu?
Mas quem será esta pessoa que me atormenta?

Os fumadores fumam
Os bêbados bebem
Os pensadores pensam
E eu?
Eu sou todos ao mesmo tempo

Tudo o que bebo
Tudo o que fumo
E, mais vezes
Tudo o que penso

Queria não ser tantas coisas 
Não ser tanto eu
Queria fumar a vida
Bebê-la toda
Não ver nada
E nem pensar.

pai

Olá cabrão
Bem vindo ao teu caixão
Engole a tua covardia
E afoga-te no teu banho de mágoas.

Enquando ainda tiveres voz 
Vou-te arrancar os teus erros
Arrependimentos serão eternos
Este é o teu inferno.

Assim, talvez 
As minhas palavras
Ganhem formas anatómicas
Que te matem de susto.

E que te arranquem os olhos
Porque os olhos só deviam servir para quem quer ver
E tu, que cegaste de tanta vaidade
Morrerás a ver-me feliz.

o fim

Perto do meu fim
O que acontecerá às palavras que não foram ditas nem escritas?

Quando escrevo o meu corpo separa-se da alma
A alma foge, sem deixar rasto
Foge para longe, onde não há vida
Durante o dia aprisiono as palavras
E só as solto quando a caneta toca no papel.

Dificil é viver
Respirar, andar, falar, comer, dormir
Viver.

Dificil é viver
Bem que me podiam avisar
O quão dificil é ficar.