quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Parasitas

Fundamentos, dizem eles
toda a gente quer ser gente
toda a gente quer falar
dizem eles, sem fundamentos

Dizem que defendem isto
dizem que são contra aquilo
toda a gente quer falar
dizem eles, sem fundamentos.

Eles, do que defendem, nada sabem
concluo, nada defendem
quem são eles se nada defendem?
eles só querem falar

Qual é a necessidade de falar
se, a palavra não é dita com a necessidade de se expressar
mas sim, com a necessidade de fingir ser alguém
isto é tudo um teatro com um palco pequeno e poucos papeis

Ter cabeça própria
viver sem ideias fixas, sem objetivos
é sobreviver, é ser ninguém
é ser parasita da sociedade que só quer ser alguém

O que falta é cabeça própria
eles só querem falar
têm a boca do tamanho da cabeça
mas falta-lhes a cabeça.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

o rei manda

sabem o que me irrita?
as pessoas, todas elas, sentadas sem saberem porquê
todas elas, comandadas pela ignorância

o rei manda: taparem a boca e fecharem os olhos
-não olhar
-não falar
mandamentos de rei são para respeitar

domingo, 23 de novembro de 2014

8º andar

quando algo é demasiado bom
tão bom que nos enlouquece
questiono-me:
a loucura é boa ou má?

porque será que toda a gente tem tanto medo de ficar louco?
se, a loucura, é a única saída deste aborrecimento
a loucura é aquela janela do 8º andar 
que está sempre aberta

a janela sem varanda
esta, sem amparo
esta, sem corrimão
esta, sem chão
esta, com risco de queda 

"perigo de queda" colado na janela
e ninguém olha para o sinal 
pois ninguém se atreve a olhar para a janela
ou chegar perto dela

mas porque será que o medo de cair é maior do que a curiosidade?
se, no meu campo, a curiosidade ganha sempre a batalha
se calhar, sou eu a louca
se calhar, sou eu aquela que olha para o sinal, ignora-o e dá 2 passos em frente

e se cair? o que poderá haver de tão mau depois da janela?
o que poderá ser tão proíbido?
mas eu sempre gostei do "não mexer" 
por isso eu dou 3 passos só para incomodar 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

discreta

Gosto de toda a gente. mas quando a gente se junta, fica diferente. e quando falam em voz alta, o tom altera. e a boca já não fala do mesmo. eles já nem falam do mesmo. esqueço-me do interesse num espaço rápido de amnésia.
Quando escrevo sobre elas a mente fica difusa e agora sento-me. tonta. para quê tanta vergonha. será que têm medo que vos conheçam como eu conheço? mas há vinho e a dança é propicia. foda-se. para quê tanto acanho. se o som aumenta e a cabeça já não pensa. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

rouca

nunca pensei que o mundo fosse tão cheio de nada


alimento as ruas com euforia
e elas não estão satisfeitas
vão encolhendo como se estivessem zangadas comigo
e, este desentendimento
cai em mim.

deve ser por falta de algo
o algo que lhe pisa
ou algo por aí além
poderei eu saber.

a minha caneta está tão gasta
as palavras já não me cabem na folha
já está tudo tão tapado de nada
tão conhecido.

eu já não sei onde escrever
deve ser porque as paredes já estão cheias
ou porque o teu corpo já não é o meu caderno de rascunhos.

não quero que ninguém me ouça
e se soubessem o que penso disto tudo
enlouqueciam comigo.

e que tinta é esta que não me deixa escrever?
a letra fugiu um dia destes
e, o texto já não sai à noite
porque anda a vadiar há tempo demais.

assento, as asas nos ombros
porque assentar não é para mim.
eu já dei o grande pulo
e, se as asas não abrirem
pula comigo.



sábado, 8 de novembro de 2014

são todos cegos

tudo se resume a pequenos segundos de prazer
e isto,
isto é tudo uma grande fachada
eu, que engulo em seco
pois, a água que bebo já não me sabe a nada
e isto
isto já perdeu o gosto

fecho os olhos para tentar sentir algo
e tudo me mete tanto nojo
eu, que tinha tanto gosto
eu, que sorria só de olhar para o chão
eu, que agora me vejo rendida a olhar com estes olhos

um dia eu quis provar a vida
foi um homem misterioso que me deu à boca
não sei porquê
ele só me deixou provar porque me achou estranha
estranha, no sentido bom ou mau da coisa
nunca percebi muito bem
a vida, embrulhada num guardanapo
empuleirei-me para dar uma trinca
eu, que agora provei a vida
mastiguei-a em todos os sentido da palavra
triturei
despedacei
a minha lingua acariciava-a com os pequenos sentidos do paladar
e mastiguei e mastiguei e mastiguei
a nada me sabe?

não me falem de deus
não me falem de politica
não me falem de ciência
estou-me pouco ou tanto a cagar
e não estou minimamente interessada
porque a mim
a mim ninguém me induz nada
e quando faço algo é por indução própria
eu, eu sei o que me apetece saber quando me apetecer
porque eles só dizem o que lhes apetece e vocês entendem como eles assim o querem
porque vós, que tanto sabem
o que ganham com isso?
vamos todos parar ao mesmo sitio
e só nos resta o prazer
só nos resta vivermos como queremos quando o tempo existir
e tudo se resume ao tempo que temos
não há espaço sem tempo
e, se cada vez que vejo a realidade
cada vez que me dão a resposta a uma pergunta
eu, eu ainda fico com mais perguntas
e depois apercebo-me que isto não sabe a nada
que a vida nada é

isto, isto é tudo uma miragem
eles são todos cegos
mas estão todos de olhos tão abertos
nem estou a falar dos cegos que não conseguem ver
não
olha para aqueles que estão de olhos abertos
mas não querem ver
ou não sabem ver

e digam-me agora
agora, que ninguém nos ouve
ao que é que a vida vos sabe?

se isto não sabe a nada para quê deixarmos que a vida cuspa em nós?
quando podemos cuspir a vida
e agora eu cuspo a vida
eu, agora cuspo o que eu quiser